JAIME PRADES
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JAIME PRADES: TRÊS GERAÇÕES
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JAIME PRADES: TRÊS GERAÇÕES
por Fabio Malavoglia

Descortinar o panorama de um artista muito prolífico, presente na paisagem cultural desde meados da década de 1980, é naturalmente uma tarefa que ultrapassa esse rápido esboço, pois demandaria um prolongado estudo. Entretanto, acredito ter visualizado, na trajetória criativa, ou melhor, procriativa de Jaime Prades, pelo menos três gerações de obras, com traços hereditários bem caracterizados.

O primeiro momento dessa aventura nos leva aos anos 80 do século passado, com os descendentes diretos da pop art de Lichtenstein e Warhol, mas também da pintura indômita e muscular de Pollock que – aqui ou em Nova York - assumem a rua e os muros urbanos, saboreiam a transgressão e a violência do grafite e – verbo fundamental – experimentam. Os limites, as cores, o perigo, a polícia, as imagens das metrópoles monstruosas. Escrevo aqui alguns nomes: Keth Haring, Jean Michel Basquiat, Alex Vallauri, Hudinilson Junior (com o Grupo 3NÓS3), Jaime Prades (com o Ateliê TUPINÃODÁ).

Essa primeira irrupção do artista, ainda jovem, no território plástico, tem como genética geral a filiação ao pop e ao grafismo nítido mas, como traços distintivos, uma alegria rebelde, expressa numa espécie de incessante história em quadrinhos cubista e non sense. Ou, como já foi escrito, num figurativismo feito de “hilários bípedes-comix, insetos semi-dadás, robôs cor de pop-chapado”, mesclados numa orgia de formas, inoculadas no corpo da arte, como um virus.

Pertencem, creio, a esta geração inicial de obras de Prades, não só os pioneiros grafites clandestinos, na hoje desgastada passagem entre as Avenidas Doutor Arnaldo e Paulista, como três grandes mise-en-scène coletivas: em 1987, na polêmica coletiva-manifesto TUPINÃODÁ, levada às Galerias Subdistrito, em São Paulo, e Cândido Mendes, no Rio; a participação do grupo na mega-mostra A Trama do Gosto, no prédio da Bienal, com curadoria de Alex Vallauri; e a última ação conjunta com Zé Carratü e Carlos Delfino, em 89, no Museu de Arte Contemporânea de São Paulo, a expo-intervenção TRI SEX SUB.

É preciso ainda incluir entre os frutos desta primeira germinação a pintura-corredor 28 Metros, na passagem subterrânea da Rua da Consolação, em 1990; a participação na Mostra Paulista de Graffiti de 1994, no Museu da Imagem e do Som; e alguns trabalhos mais recentes que, entretanto, reportam-se diretamente a seu momento seminal: o painel O Jardim no hall do teatro do SESC Pinheiros; o objeto-gráfico Dínamo Urbano da Harmonia Celeste, ativado em 2006 em Recife, Salvador e São Paulo; a ocupação pictórica Mantra Dinamus Estelar, em 2011, mais a presença na 3ª Bienal Internacional do Grafitti Fine Arts, em 2015, ambas no Parque do Ibirapuera; e o mural Metamusicomaquina, arte inesperada ampliando um muro de condomínio na rua Bela Cintra.

Porém a gestação plástica na incubadeira urbana desdobra-se em duas linhagens posteriores. Inicialmente o contato constante com tudo que a cidade regurgita nas calçadas – resíduos, descartes, dejetos, sobras, desvalores – leva à reação alérgico-artística. A criação lança mão do que é desprezado, do que é rejeitado, resignifica os detritos, bagunça o binômio lixo-luxo, expõe na luz da arte a ferida aberta do consumo voraz. São árvores re-feitas de tábuas e madeiras usadas, são instalações com centenas de garrafas-pet vazias, são grifos rupestres em sobras de argamassa.

Filiam-se a esta segunda matriz desde obras como a precoce instalação Bichos, nas margens do Rio Tietê, em 1991; a Árvore das Perguntas, que aparece em 2008 numa esquina da rua Apinagés, as Lixeiras da Terra (a Terra no Lixo), no mesmo ano, no centro de São Paulo, bem como a sequência das mostras Natureza Humana onde brotam as árvores-fantasmas ressuscitadas com pedações de lenha: em 2009 no Festival de Inverno de Bonito, no Mato Grosso do Sul; em 2010 na Matilha Cultural, em São Paulo; em 2011 numa instalação em Campinas; em 2018 na coletiva Experimento e Paisagem, no SESC de São José dos Campos. Nutridas coleções dessas peças que questionam o modo de funcionamento devorador da civilização das máquinas agrupam-se nas individuais Parede s/ Parede, no Ateliê Galeria Priscila Mainieri, em 2012 e, no ano seguinte, nos espaços do Instituto Cervantes, na grande mostra OSSO. A instalação À Deriva, um barco que flutua sobre um rio feito de plásticos descartados, é selecionada pela Virada Sustentável, em 2014, para o Parque do Ibirapuera, e cresce, numa versão de 2020, no SESC Pompéia.

Esse movimento tem, como pano de fundo, uma crescente consciência da sacralidade da natureza e de toda a criação, na qual se integra a Arte. Como escreve o artista no catálogo da mostra OSSO, “sem a dimensão do sagrado o homem torna-se um bruto”. Assim, na oficina onde Jaime Prades forja suas peças comparece, já desde a década de 90, um ardor por transcendência que vai moldar, entre as influências das duas correntes anteriores, uma terceira linguagem, onde o grafismo se sublima, torna-se fluência, “cabelos serpenteados de sereias”, na definição da curadora Ana Avelar, que prologa os catálogos da exposição Dentro / Inside, de 2016, na Galeria Mezanino, début público destas formas insinuantes que ascendem do negro ao ouro e que, em 2017, com o nome de Céu e Terra, enlaçam uma longa parede do novo SESC Birigui.

Essa listagem não é exaustiva, longe disso: não se mencionam a presença de uma sacralidade escultórica já na coleção Verticais exposta em 1994, no Centro Cultural São Paulo; nem os curvilíneos metais das peças Orgânicas mostradas n’A Lanterna, um ano depois. Mas as linhas de força, descendentes dos traçados de Jaime Prades nos muros da cidade na década de 80, se interpenetraram. Em 2019, no Espace International Cosmopolis, em Nantes, na França, terceira exposição do artista no estrangeiro, ele reúne seus novos quadros de fluidez inebriante e aspiração celeste, sob o título de Gravitations Atomiques, com o mais recente exemplar de suas árvores resgatadas da incúria de um tempo onde o imemorial anseio humano de beleza, harmonia e vida encontra, na coragem de alguns artistas – como este – talvez alguns de seus últimos, denodados defensores.

São Paulo
abril de 2020