JAIME PRADES
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Atualmente é coordenadora do Instituto Figueiredo Ferraz de Ribeirão Preto, foi curadora executiva do MAM/SP e coordenadora do MAC/USP, atua também como curadora independente.


ARQUITETURAS EXTRAORDINÁRIAS

Jaime Prades

A década de 80 foi marcada pelo fim da ditadura no Brasil, quando uma nova
liberdade abriu o país para movimentos na música, nas artes visuais, no
teatro e em outros meios de expressão como o outdoor (a exemplo do Arte
na Rua promovido pelo MAC-USP durante a gestão de Aracy Amaral) e o
grafite de rua como meio utilizado por diversos artistas a exemplo de Alex
Vallauri, Mauricio Villaça, Hudinilson Jr e do grupo Tupinãodá, no qual Jaime
Prades foi atuante. Foi nessa década que surgiram as bandas de pop rock,
como: Ira!, Titãs, Mulheres Negras, entre outros em São Paulo e Blitz,
Paralamas do Sucesso, Radio Taxi, e outras no Rio de Janeiro, sem contar o
inovador Circo Voador no Rio. A geração de artistas plásticos desta década
revolucionou a produção de arte no país, incentivando um novo mercado,
com o surgimento de diversas galerias voltadas para a arte contemporânea
nacional.


Arte na Rua, MAC 1984. Instalação do Tupinãodá "Brasil".


O caos poético do Tupinãodá na performance no DCE da USP, 1987. Foto: Neta Novaes.

O retorno à pintura é notável nos anos 1980 no Brasil, inspirado
principalmente em pintores europeus e norte-americanos que participaram
das Bienais Internacionais de São Paulo da época, a exemplo da 17ª Bienal
(1981), com curadoria de Walter Zanini, e da 18a Bienal, realizada em 1985
sob a curadoria de Sheila Leirner. Mas outros meios de expressão como a
videoarte, abriram um campo enorme para artistas visuais como Tadeu
Jungle, Walter Silveira, Eder Santos, Sandra Kogut, entre diversos outros,
muitos deles tendo enveredado para a televisão, em especial a inovadora
MTV.

No Rio de Janeiro, a exposição Como vai você geração 80? (1984), realizada
na Escola de Artes Visuais no Parque Lage com a participação de 123
artistas, também rompeu paradigmas, lançando diversos jovens artistas do
Rio, como Jorge Guinle, Daniel Senise, Luiz Zerbini, Nelson Félix, Cristina
Canale, e de São Paulo, como Leda Catunda e Leonilson. Diversos artistas
participantes daquela mostra histórica foram convidados a integrar a Bienal
de 1985, ao lado do grupo Casa 7, formado pelos artistas Carlito Carvalhosa,
Fábio Miguez, Paulo Monteiro e Nuno Ramos, que já haviam exposto no
MAC-USP em 1985, durante a direção de Aracy Amaral, que revitalizou o
museu na época.

As aberturas do MAC-USP contavam com performances de artistas como
Theo Werneck e Otavio Donasci e eram ponto de encontro de jovens que
dali partiam para a noite paulistana rumo ao Radar Tantã, Rose Bombom ou
Aeroanta, onde as bandas tocavam e tudo acontecia, até cortes de cabelo. A
inauguração do Tupinãodá não foi diferente. Foi emocionante ver artistas de
rua apresentando seus trabalhos em um museu. Embora a Bienal já tivesse
mostrado os trabalhos das estrelas norte americanas Keith Haring e Kenny
Scharf (cujos trabalhos fazem parte da coleção do MAC-USP até hoje), o fato
de um grupo de grafiteiros terem seus trabalhos no mesmo espaço que
grandes artistas como Picassso, Miró, Calder, Matisse, entre outros grandes
nomes da arte internacional e nacional que compõe o riquíssimo acervo
desse museu, foi, sem dúvida, um marco para a história da arte de rua no
Brasil.


"O Dragão" de Jaime Prades no túnel da Dr Arnaldo, na cidade de São Paulo. Foto : Neta Novaes.

Foi nesse ambiente de muita produção artística, festas, performances e que
conheci Jaime Prades, quando organizei e montei a exposição do Tupinãodá
no MAC-USP em 1987, dirigido por Ana Mae Barbosa na época, onde eu
trabalhava no setor de Exposições Temporárias e Videoarte. Composto por
Jaime, Zé Carratü e Carlos Delfino nessa época, o Tupinãodá atuava por
toda a cidade. Todos conheciam seus trabalhos, mas não sabiam
exatamente quem eram. Convivíamos diariamente a pé, e pelas janelas dos
ônibus e dos carros com esses trabalhos fabulosos – seres de outros
planetas, astronautas, máquinas, letras, frases, em meio a formas e cores
que alegravam o ambiente cinzento da cidade.

Jaime e eu estávamos iniciando nossa formação profissional quando nos
encontramos nos anos 80, muito embora já estivéssemos no meio artístico
desde os anos 70. Eu na FAAP, ele na Escola Contemporânea de Arte. A
década de 1980 foi, sem dúvida, uma década de abertura política, sim,
principalmente, de explosão nas artes.


Na rua, Jaime Prades, 1990, São Paulo. Foto: Neta Novaes

A meu ver, a pintura de rua é tão pintura quanto a pintura de galeria. O artista
precisa ter muito conhecimento sobre desenho, cor, proporção. E Jaime, que
conviveu com artistas desde criança, uma vez que seu pai trabalhava na
área de cinema, sempre foi um artista. De rua, de galeria, de museu.

Sem dúvida, o desenho é parte importante na composição dos trabalhos de
Jaime Prades, tanto na pintura quanto na escultura. Entretanto, a forma
como o desenho é utilizado é o que o difere de outros pintores. E, acredito
que, o fato dele ter nascido na Espanha, onde morou até a adolescência,
conta muito. A influência indireta de artistas como Miró, Tapiés e Gaudi é
notável, da mesma forma que o influenciaram diversos artistas que
participaram de Bienais em São Paulo, onde passou a morar desde que veio
para o Brasil. A irreverência do Grupo Fluxus, que participou da 17ª Bienal de
São Paulo, dos personagens e liberdade de gestos nas pinturas dos neo
expressionistas alemães como Penck e Baselitz e dos grafites de Haring,
que, além da Bienal, dividiu os espaços das ruas de São Paulo com nossos
grafiteiros, foram fundamentais na formação e produção de todos os artistas
brasileiros.

Mas foi-lhe impactante, também, a arte informal de Basquiat e a art brut (ou
arte naif) produzida por internos de hospitais psiquiátricos (e/ou artistas
livres da influencia de estilos oficializados pelo mercado institucionalizado),
pesquisada e aplicada por Jean Dubuffet nos anos 1940, assim como o filme
A Caverna dos Sonhos Esquecidos, de Werner Herzog, que revela os
primeiros registros humanos realizados há milhares de anos.



Só um artista que entende muito de desenho sabe o valor do carvão, mineral
natural utilizado desde a pré-história. Jaime, tendo nascido na Espanha,
onde diversos artistas contemporâneos se inspiraram nos registros das
cavernas de Altamira, entre outras, sabe utilizá-lo com maestria. Não apenas
como desenho, mas, principalmente, como pintura.

Acompanhei a produção deste notável artista, alquimista e “inventor” (como
ele mesmo se define), desde a histórica exposição no MAC-USP. Seus
personagens em grafite, pinturas, ferro e sobre materiais reutilizados e
recontextualizados como portas, janelas, batentes e sarrafos fazem parte da
minha memória e da memória de São Paulo, onde, até hoje, podemos nos
deparar com um muro, uma parede, uma instalação, um personagem.

Mas, não quero me alongar sobre a extensa e rica produção de Jaime, muito
bem documentada no livro publicado em 2009 com texto e entrevista de
Fábio Magalhães, e sim, tratar do ponto principal deste texto: as pinturas
apresentadas na exposição Arquiteturas Extraordinárias, na Galeria
Andrea Rehder, em São Paulo, paralelamente, não por acaso,
à 36ª Bienal de São Paulo.



A primeira sala da mostra parte de uma escultura máquina/orgânica de 1996,
que se encontra no centro circundada por desenhos em carvão sobre tela.
Só esta sala bastaria para uma exposição e uma ampla discussão sobre o
percurso do trabalho de Prades, desde os projetos realizados nas ruas nos
anos 80 até hoje. Nela, encontramos uma pintura feita diretamente na janela
que dá para a Av. Brasil, retomando a adrenalina dos anos 80: “fazer a arte
diretamente na janela é mais subversivo, mais "grafite". É corpo a corpo com
a rua e sem retorno, não pode ter erro”, diz o artista. Jaime nunca deixou de
realizar trabalhos tridimensionais. Assim como nunca deixou de pintar e
desenhar, nem de fazer arte de rua. E esta mostra apresenta todos estes
meios de expressão.




Toda a exposição se desenvolve em torno do carvão e da pintura. E, aqui, o
artista atinge o ápice de sua produção. Pelo menos até 2025. Se, na
primeira sala os desenhos em carvão nos remetem aos personagens que
permeiam a obra de Jaime desde o início de sua produção, nas ruas de São
Paulo, as cores e formas arquitetônicas que nos remetem às do uruguaio
Torres-Garcia (lembrando que Jaime é filho de uruguaio casado com uma
brasileira) tomam o espaço. Verdadeiros vitrais com cores baixas, algumas
metálicas que, ao mesmo tempo que lembram cidades futuristas, nos levam
a espaços e cores empregados por artistas renascentistas, revelando um
outro lado do artista: o espiritual. Não que todo artista não tenha um lado
espiritual. Arte é, por natureza, espiritual. Mas, se olharmos sob esse ponto
de vista, essa produção se torna uma outra experiência. E foi essa sensação
que tive quando entrei pela primeira vez na exposição.



Em outra sala, pinturas/desenhos em carvão sobre tela, em muitos tons de
cinza obtidos por meio de camadas e camadas de desenhos e formas,
trazem um outro olhar artístico: o político. Ser artista é, por si só, um ato político.
Mas aqui, novamente, Jaime vai além. Inconformado com as
queimadas que aconteceram no Brasil em 2024, decidiu utilizar apenas o
carvão, que é nada mais do que madeira queimada, para realizar os
trabalhos. Um ato artístico diante de uma tragédia. Não por acaso Picasso
era espanhol, nem, por acaso, pintou Guernica. Nada é por acaso,
guardadas as proporções.



Ao sair da exposição nos deparamos, na área ao ar livre da galeria, com
totens em ferro feitos por Jaime na década de 2010. E, assim, a exposição
tem início e se encerra com a escultura.

Este livro nos permite ver várias vezes as obras apresentas na exposição,
mesmo após ela ter terminado. Se analisarmos trabalho por trabalho
descobriremos um mundo de formas e cores. Da mesma maneira que,
quando lemos um livro ou ouvimos uma música mais de uma vez,
descobrimos novas notas e frases, dependendo do momento de nossas
vidas.

A arte tem o poder de mudar o mundo. Em tempos como este, de guerras no
mundo e no nosso país, só a arte pode nos salvar. Porque arte é educação,
é política, é alquimia, é matemática, é filosofia. E é universal.



Sendo um artista do mundo, das ruas, e um grande conhecedor das artes
gráficas, Jaime possui um site onde podemos ver com detalhes toda a sua
produção, enriquecida com textos escritos por vários críticos e pelo próprio artista.
Dizem que os sites estão em extinção, mas, ainda são, sem tirar o lugar principal
das bibliotecas, algumas das melhores fontes para melhor
conhecermos museus, artistas e galerias ao redor do mundo. Recomendo
vivamente que, além de desfrutarem deste catálogo — cujo design gráfico foi
feito por Claudio Rocha, um dos designers brasileiros mais reconhecidos
internacionalmente —, visitem também o site de Jaime Prades, onde
podemos navegar por estas e muitas outras obras.

Rejane Cintrão
outubro 2025.


Jaime Prades: MAC, 1989 - ateliê, 2025 nas fotos de Rejane Cintrão.